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| /Imagem de Alfred Kubin/ |
Consegui fazer compras.
Isso há semanas seria tortura. E na verdade foi. Mas eu venci, e estou aqui com os meus pacotes.
A ideia é devorar uma bacia de frutas. Depois trabalhar nas correções.
Apenas uma talagada no vinho, um pedaço de pão, uma pera.
A chuvinha miúda desgraçadamente ganha corpo, é uma verdadeira catástrofe, as trovoadas apagam a luz do dia, instituem um enorme desânimo. E o calor é insuportável.
Estiro-me na cama. Os olhos parados no teto.
Mais uma taça de vinho, um cigarro. As frutas se mantêm intactas na embalagem. As provas sobre a mesa. A vontade se esvaindo envergonhada para o ralo.
Penso naquelas outras frutas, nas flores destroçadas, nas palavras corrompidas.
No fundo, elas não gostam de mim, eis toda a verdade.
A frase boiava no ar. Eu fumava mais cigarros, deixando-a voltar à minha boca, quando não ao pensamento ou - oh, que pobreza de espírito! - ao coração.
Coração é uma palavra cirúrgica, Seu Mário, nada disso. E não deve ser escrita ao lado de caridade.
A frase volta - voltam várias, voando: são corvos, são víboras, são pombos.
São ratos, esconderam-se.
Ideias torpes.
No fundo, elas me acham um sujeito muito calado e metido em si mesmo. No fundo o controle da situação é tão grande pra elas que nem sabem o que querem.
Talvez não somente eu, mas todos os homens, eu penso (isso é uma forma de consolo ou de desesperança?) são, pra elas, serem desconjuntados, animalescos. Nossas partes pudendas devem ser, afinal, escondidas. E as delas? Expostas. Agraciadas. Louvadas. As nossas, Seu Mário, isso é fato: as nossas vexam a espécie, causam engulho.
E penso ainda - e o senhor e outros mais que eu talvez devessem concordar (sim, fariam isso se cozinhassem bem o assunto) - que somos a parte podre da espécie, a parte indesejável, a parte apenas necessária.
Meu pai o grande tolo iludido. Porque minha mãe no fundo conhecia o mundo todo, do fundo dos buracos do quintal, nas caraminholas dela, também no jogo do corpo na rua, muitos olhares na calçada mudamente confirmando.
Uma imensa piscada dela: - Você sabe, não é? Você sempre soube.
E a música tocando na vitrola. Muito mais bonita que a que ouvia o meu pai.
Um pesadelo muito triste.
E agora vem essa Helena mostrar nessa foto mental que eu guardei de seu corpo - ela vem me dizer, eu ouço, no sonho, na dura viagem do ônibus, nas bocas das outras mulheres que encontro todo dia, caixas, balconistas, atendentes - ela vem me dizer que meu apetite, que minha enorme apetência, que minha gula furiosa é algo até constrangedor, que deveria ser relocada para baixo dos meus pés, que essa minha fome inútil é todo o motivo para que eu seja eternamente solitário.
Ela disse isso!
Outro gole no vinho.
E ela certamente falará também de seus cabelos, sua pele e suas unhas, suas roupas, seus colares, seus dentes, seus olhos, ela falará de tudo isso pois seu corpo pode e deve ser louvado.
Eu li numa revista esses dias que os homens começam a desfazer-se de seus pelos, que isso era um pedido na verdade do universo feminino. Pensei em arrancar os que tenho no peito. Pensei em arrancar até os que tenho debaixo dos braços, e obviamente considerei que deveria manter o meu rosto sempre escanhoado. Nunca barba por fazer.
Essa revista captou perfeitamente as solicitações de Helena. As depoentes diziam, sobre os pelos masculinos, frases como "Causam nojo" e "São incômodos".
O nojo de Helena por mim deve crescer a cada dia, a cada dia que eu percebo sacudir em meu ventre a velha fome ancestral, voracidade incontornável, anômala, deselegante.
Helena por todas as outras bocas que encontro me diz que o seu corpo se basta, é ele em si um próprio gozo. Um gozo elegante, sem protuberâncias, um gozo que não necessita de outro corpo.
Sou um cachorro (um rato ou um pombo, tanto faz) diante de Helena: é claro que a minha baba a satisfaz, mas apenas por representar o imenso apreço que tenho pela sua grandeza, o monumento de sua beleza, colossal, imponente, lisa, fluida, de formas fundas e arredondadas, um universo profundo que jamais precisa e de modo algum pretende ser tocado.
(São Paulo, 20 março de 2002)





