sexta-feira, 23 de março de 2012

entulhos

/Imagem de Alfred Kubin/

Consegui fazer compras.

Isso há semanas seria tortura. E na verdade foi. Mas eu venci, e estou aqui com os meus pacotes.

A ideia é devorar uma bacia de frutas. Depois trabalhar nas correções.

Apenas uma talagada no vinho, um pedaço de pão, uma pera.

A chuvinha miúda desgraçadamente ganha corpo, é uma verdadeira catástrofe, as trovoadas apagam a luz do dia, instituem um enorme desânimo. E o calor é insuportável.

Estiro-me na cama. Os olhos parados no teto.

Mais uma taça de vinho, um cigarro. As frutas se mantêm intactas na embalagem. As provas sobre a mesa. A vontade se esvaindo envergonhada para o ralo.

Penso naquelas outras frutas, nas flores destroçadas, nas palavras corrompidas.

No fundo, elas não gostam de mim, eis toda a verdade.

A frase boiava no ar. Eu fumava mais cigarros, deixando-a voltar à minha boca, quando não ao pensamento ou - oh, que pobreza de espírito! - ao coração.

Coração é uma palavra cirúrgica, Seu Mário, nada disso. E não deve ser escrita ao lado de caridade.

A frase volta - voltam várias, voando: são corvos, são víboras, são pombos.

São ratos, esconderam-se.

Ideias torpes.

No fundo, elas me acham um sujeito muito calado e metido em si mesmo. No fundo o controle da situação é tão grande pra elas que nem sabem o que querem.

Talvez não somente eu, mas todos os homens, eu penso (isso é uma forma de consolo ou de desesperança?)  são, pra elas, serem desconjuntados, animalescos. Nossas partes pudendas devem ser, afinal, escondidas. E as delas? Expostas. Agraciadas. Louvadas. As nossas, Seu Mário, isso é fato: as nossas vexam a espécie, causam engulho.

E penso ainda - e o senhor e outros mais que eu talvez devessem concordar (sim, fariam isso se cozinhassem bem o assunto) - que somos a parte podre da espécie, a parte indesejável, a parte apenas necessária.

Meu pai o grande tolo iludido. Porque minha mãe no fundo conhecia o mundo todo, do fundo dos buracos do quintal, nas caraminholas dela, também no jogo do corpo na rua, muitos olhares na calçada mudamente confirmando.

Uma imensa piscada dela: - Você sabe, não é? Você sempre soube.

E a música tocando na vitrola. Muito mais bonita que a que ouvia o meu pai.

Um pesadelo muito triste.

E agora vem essa Helena mostrar nessa foto mental que eu guardei de seu corpo - ela vem me dizer, eu ouço, no sonho, na dura viagem do ônibus, nas bocas das outras mulheres que encontro todo dia, caixas, balconistas, atendentes - ela vem me dizer que meu apetite, que minha enorme apetência, que minha gula furiosa é algo até constrangedor, que deveria ser relocada para baixo dos meus pés, que essa minha fome inútil é todo o motivo para que eu seja eternamente solitário.

Ela disse isso!

Outro gole no vinho.

E ela certamente falará também de seus cabelos, sua pele e suas unhas, suas roupas, seus colares, seus dentes, seus olhos, ela falará de tudo isso pois seu corpo pode e deve ser louvado.

Eu li numa revista esses dias que os homens começam a desfazer-se de seus pelos, que isso era um pedido na verdade do universo feminino. Pensei em arrancar os que tenho no peito. Pensei em arrancar até os que tenho debaixo dos braços, e obviamente considerei que deveria manter o meu rosto sempre escanhoado. Nunca barba por fazer.

Essa revista captou perfeitamente as solicitações de Helena. As depoentes diziam, sobre os pelos masculinos, frases como "Causam nojo" e "São incômodos".

O nojo de Helena por mim deve crescer a cada dia, a cada dia que eu percebo sacudir em meu ventre a velha fome ancestral, voracidade incontornável, anômala, deselegante.

Helena por todas as outras bocas que encontro me diz que o seu corpo se basta, é ele em si um próprio gozo. Um gozo elegante, sem protuberâncias, um gozo que não necessita de outro corpo.

Sou um cachorro (um rato ou um pombo, tanto faz) diante de Helena: é claro que a minha baba a satisfaz, mas apenas por representar o imenso apreço que tenho pela sua grandeza, o monumento de sua beleza, colossal, imponente, lisa, fluida, de formas fundas e arredondadas, um universo profundo que jamais precisa e de modo algum pretende ser tocado.


(São Paulo, 20 março de 2002)

sexta-feira, 2 de março de 2012

entulhos

/Imagem de Rubem Grilo/
 
- Chegou há muito tempo?

A chuva caía forte. Os pombos pareciam ralhar.

Uma pergunta vazia. Afinal eu me sentia solto no tempo. Ou talvez preso. Não era a mesma coisa?

Uma pergunta vazia. E os pombos pareciam ralhar. Os restos de comida pra eles. A taça de vinho passando de uma mão à outra.

Desde quando?

Desde o maldito feriado, certamente. É possível que tenha até ocupado alguns dias letivos com esse meu estado. O telefone está mudo, fora do tempo, como eu.

Seria mais decente situar-me, aprumar-me, retomar meu rumo. Seria, nas palavras de Seu Mário, um gesto de caridade?

Nada: mínima decência, e algum sinal de hombridade.


Palavra idiota, repito, sem saber se sou ouvido, se há resposta, ou continuidade.

Tenho um sono intermitente, cheio de gritos e apitos, com uma casa imensa por devo caminhar mas não quero. Sou obrigado a ir. Encontro móveis novos, pessoas animadas com reformas e transformações. Eu entendo a alegria delas. Mas apenas isso. Depois descubro que preciso voltar para casa. Alguém me espera, talvez meus pais, ou uma mulher.

Acordado, pergunto-me: uma mulher?

Se existisse de fato, no sonho, a mulher poderia ser Helena?

E ela por acaso existe mesmo? E, se existe, a pergunta retorna:

- Quando foi que chegou?

Não a leio em registros, em nenhuma patacoada árcade dessas que escrevi reconheço seu nome. Solene nome.


Seria necessário sair do mutismo, retomar a tal vida. Seria, sim, um gesto da caridade, talvez, comigo. Mas é posssível caridade à alma solitária?

Seria necessário dar continuidade.

Aos sonhos, ao trabalho, aos hexâmetros tolos - seria preciso desacortinar Helena.

- Desde quando está aí?

Outro gole de vinho. E a chuva inundando o quintal.

Esses cacos de vida - como a cantilena dos pombos - jamais tecerão a manhã. 



(São Paulo, 15 de março de 2002)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

entulhos

/Imagem de Alfred Kubin/
Espero que não venha.

Deixei prontinha a seleção de músicas. E até servi o vinho.

Se ela vier?

Passei a tarde toda ruminando isso, mergulhado em sombras, pestanejando.

A verdade é que não durmo há duas noites já e, durante o dia, caio em pequenos cochilos. Isso vem desde o maldito convite.

Os tempos eram bons, depois das férias, com seus dias longos e suas noites quentes, com todo o peso que se derramava sobre a minha cabeça para que eu de modo algum, jamais, pudesse descansar meu corpo. O silêncio não me era permitido, e na melhor das hipóteses tinha as vozes das aves. Gorjeios não; arrulhos.

Nem um dia sequer de descanso. Porque o trabalho da cabeça prosseguia, mesmo em dias sem Seu Mário, mesmo em dias sem seus pombos.

No entanto, as coisas iam bem porque as férias acabaram e alguns dias depois a luz da rua não me feria mais os olhos. Eu sobraçava a pasta, empacotado em meu antigo paletó.

Vivi dias luminosos e definitivamente não, eles não me feriam os olhos. Falei com os colegas, bebi café e tive parte em conversas agradáveis.

Na sala de aula, tudo transcorreu muito bem. As aulas fluíam plenamente, o meu corpo, a minha voz, a articulação das palavras, tudo aos poucos ia se engrenando como deve ser. Os ralhos, as piadas, os momentos altos e os mais calmos, a dinâmica de sempre, os alunos em geral pessoas muito queridas.

No período da tarde, eu trabalhava nas lições, corrigia material, lia os jornais. À noite o sono chegava e lentamente me levava. Eu estava tranquilo, seguro, envolvido na cápsula dos dias.

Foi então que ela me apareceu, num feriado que teimava em prosseguir. Fiz a limpeza dos papéis, anotei os planos de aula, corrigi lições, depois fiquei rabiscando folhas em branco, achando que me entenderia com a literatura. Bobagem... Dois cigarros apagados e coisa alguma que valesse reler.

Deitei-me, e uma nuvem branca formou-se em meu entorno, envolvendo-me em paz e doçura.

Pelas sete da noite acordei alvoroçado com os estrondos, fogos, buzinas, música alta pela vizinhança. Resolvi abandonar o quarto, passei água no rosto, vesti-me e logo em seguida estava caminhando pela rua. Sentia fome, e pensei em sentar em algum canto pela redondeza pra comer.

A nuvem branca continuava em meu entorno, e, embora atenuasse a balbúrdia do mundo à minha volta - carros zunindo na avenida, com seus faróis devoradores, música e falação que me feriam os ouvidos - formava agora, ela mesma, um turbilhão em seu centro. Senti tontura, sede, fraqueza nas pernas e resolvi sentar-me no primeiro bar que encontrei.

Pedi um sanduíche e uma garrafa de cerveja.

O sanduíche, devorado em poucas mordidas, fez-me bem, e a cerveja restabeleceu-me o ânimo. A nuvem branca se desfez e logo notei - já tomando uma segunda garrafa - que alguma coisa parecida com alegria me empolgava e me fazia buscar com o olhar o movimento do ambiente, frequentado por homens de meia-idade e alguns poucos jovens. Já tinha entrado ali, uma vez, me lembrei, para comprar cigarros.

Depois da terceira cerveja, resolvi me levantar e sentar-me ao balcão, ao lado de um grupo de pessoas mais novas que eu, uns rapagões fortes de vinte e poucos anos, umas mocinhas também, da mesma idade. Provavelmente eu quisesse entabular conversa, me expandir.

O assunto dos rapazes era-me inteiramente desinteressante. Falavam da Copa do Mundo e de "nossa" Seleção. As moças iam pelo mesmo tema, mas facilmente derivavam para outros, empolgando-se em especial com a beleza de outros países, outras paisagens, outros povos.

Aborreciam-me igualmente os comentários delas, porque eu nunca conheci país algum a não ser este, e há muito tempo não saía sequer dessa cidade, lugar horrível cuja existência sempre lutei para ignorar, vivendo sistematicamente num casulo. Eu já embarcava nessas conclusões, me recolhendo aos poucos à insignificância sombria, quando surgiu na rodinha uma nova presença.

Apresentou-se como Helena.

Tentei dizer a ela que nos conhecíamos - uma noite num apartamento, uma garrafa de vinho, alguns CD´s de jazz... - mas decidi me calar.

Ela sentou, serviu-se de uma garrafa, por acaso a que eu havia pedido, e perguntou:

- Você chegou há muito tempo?

Não havia nuvem branca em meu entorno, nem turbulência na rua. Havia só dois olhos e uma boca me falando, e os olhos e a boca eram a noite, a noite inteira, com todas suas nuvens e suas turbulências. Com suas turbinas.

Antes de sair do bar já muito bêbado, deixei meu endereço com ela, num guardanapo de papel.

Segui andando pela rua e desde então não pude conciliar o sono, e não me esqueço.

Ontem saí pela manhã e comprei vinho, frutas, pães e flores. Passei o dia imaginando sua chegada triunfal. Via um vestido florido, um par de sandálias, pedaços soltos de mulher. Arrumei e rearrumei os cantos todos do quarto, espanejei os livros.

Abro o vinho e começo a beber, vou esfarelando as corolas das flores. As frutas apodrecerão com os dias. E o pão, duro como pedra, como meu rancor e meu silêncio, será comido lentamente.


(São Paulo, verão de 2002)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

resquícios do leste



O Nievá, e a consciência torturante de um vazio que não se rende.


(São Petersburgo, janeiro de 2002)

entulhos

/Imagem de Rubem Grilo/


Mas nada que não me cansasse mais ainda a fala. Nada que não me fizesse sucumbir ainda mais. Era a voz de veludo, era a vez, era ela, era quem?

Era Helena.

A palavra roçou o meu rosto. Tanto assim que acordei, e senti o calor sufocante do dia, senti minha fome já há um tempo ignorada, a sede em minha boca cada vez mais intensa com o consumo do tabaco. No escuro (era meio-dia?) acendi um cigarro, e o máximo que pude fazer foi servir-me um gole d´água.

Muito bem, mais um nome inventado. Mais um rosto no escuro, mais uma forma intocável. Mais insularidade.

O outro como continuidade do mesmo. O outro como entreposto para um pórtico fechado. O outro como continuidade.

É assim a doença?

Asas e bicos nos sonhos.

Era assim?

Seu Mário diria que amar é reunir seres aflitos num viveiro. (Os pombos, o câncer). Eu ouviria isso, se pudesse escutar suas palavras, ou se alguém (eu jamais) pretendesse escrevê-las.

Seu Mário e seus arrufos, que imagino. Eu os ouviria, se me dispusesse.

A voz dos outros (mesmo a de Ernesto Campos, amigo meu) já me causa arrepios. Em geral, os sons que saem de boca humana se misturam em meus ouvidos e se convertem em acordes distorcidos, sopros agudos, cortantes, terríveis para minha audição a cada dia mais sensível.

Seria assim também a voz de Helena, com o passar do tempo? - esse tumulto ruidoso. Um ser aflito engaiolado? Como tudo o que se move do passado e deseja ganhar algum lugar entre estes dias, como tudo o que pretende lançar seus sinais de vida, respiração, hálito, feminilidade, coisas da ordem do espanto, vida em comum, luz do sol e dos postes, labaredas, restaurantes, crepitações, brilho de olhos.

Brilho de olhos de pássaro. Asas e bicos nos sonhos. Brilho e frescor de um jato d'água alcançado na pia, para afastar o tumulto.

Puta que o pariu, Seu Mário! Eu tenho todo dia enterrado esses pombos, sentindo em minha boca suas penas, a garganta ressentindo o sumo horrível dessa carne espumante.

E agora vem Helena.

Concentrado nesse nome, tento abafá-lo, convertê-lo em imagem obscura, numa mancha, um borrão, alguma forma de existência parecida com lembrança, com esta paralisia com que posso orquestrar - só assim - o espírito quieto do mundo.

(São Paulo, janeiro de 2002) 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

entulhos

/Imagem de Rubem Grilo/

Mas continuo aferrado a esta cama, inteiramente vestido, apenas sem meu paletó, que está ali no mancebo, embaixo do chapéu que ganhei e não uso, desenhando desse modo o vulto de um homem.

Doente há quanto tempo?

Os colegas estranham essa ausência?

Não descumpro os horários no trabalho, mas frequentar uma festa já seria uma coisa muito diferente. Perda de hábito, eu acho. É possível que eu tenha sido arrastado, a vida toda, a lugares odiados pelos meus sentidos. É possível sim. Apenas para não magoar quem prefere me ver conversando, apenas para deixar as situações todas mais leves. Um homem - e ainda mais um homem jovem - deve dar, ao menos às  vezes, seus sinais de alegria.

Apenas pra não magoar... Mas seria difícil dizer que não é também uma razão um tanto nobre. Isso precisa ser reconhecido. Abrir mão de algo para agradar os outros. Eu sabia fazer isso - essa coisa meio nobre - antes.

O problema é ver-se inapto para a companhia. Isso afeta o seu trabalho, pouco a pouco. Porque você então já não consegue se comunicar direito. Passa a ter o desejo exclusivo de se enclausurar, metido em coisas que já deixaram de ser há alguma tempo algo parecido com sonhos, pensamentos, desejos.

Meter-se vestido e sob lençóis, em pleno verão. Falar, debater, convencer ou convencer-se começa a se tornar, para esse tipo de gente, impossível.

Essa pessoa aferra-se à cama, tem apenas vontades pequenas e absurdas como a de que o verão termine antes da época normal, começa a achar que a luz do sol é uma coisa realmente agressiva. Essa pessoa nem consegue mentalizar espaços abertos, passa dias procurando apagar da memória a experiência de um dia de sol.

Pois então. Prossigo fumando no escuro e não atendo ao celular. Vou me afundando pouco a pouco neste espaço bolorento e sem futuro, contaminado de lembranças, retalhos de memórias, tralhas, entulhos. As vozes que cruzam o silêncio agradável da noite. Vozes abafadas pela generosa distância do tempo.

Ando pelo quarto. Sento-me à mesa. Teve uma noite em que (agitado) resolvi sair. Entrei em muitos bares, perambulei a esmo, cheguei a me perder em ruas que eu há muito tempo conhecia. Acho que passei em frente ao prédio de Helena, mulher com quem saí há mais de um ano, mas não tenho certeza. Talvez pudesse bater à sua porta, iniciar uma conversa, chamá-la pra jantar.

Imagine uma pessoa como eu num restaurante. Uma pessoa assim procura se manter ignorada, esconde o rosto, fica passando os olhos num livro, tenta a todo custo não ser percebida. E eu iria como, então, jantar com Helena? Isto se Helena aceitasse, se aquela fosse mesmo sua rua, se ela ainda de fato morasse ali, se ela estivesse em casa àquela hora, se ela estivesse acordada, se ela quisesse me receber, se ela, enfim, de fato, verdadeiramente existisse. Nem é certo que eu estive em tal rua, nem que de fato eu tenha abandonado este ambiente. Na verdade é quase inacreditável que eu tenha feito isso. E a noite em questão, finalmente, quem sabe, pode ter sido nada mais que um delírio...

Uma pessoa como eu não escreve, Seu Mário, porque essa pessoa acredita, quando lê o que escreveu, que jamais poderia ter feito esse tipo de coisa. Não ela, essa pessoa aferrada ao silêncio.

(São Paulo, janeiro de 2002)



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

entulhos

/Imagem de Grain Vert/

Bicoradas de pombos e corvos. Essa cidade é um pesadelo.

Seu Mário agitou-se a noite toda. Meteu-se com uma vara no viveiro dos bichos, em voz de cantilena os almadiçoou e os benzeu. Ouvi ele dizendo "Agradecido, meu filho, agradecido".

Duas da tarde e ainda de pijama. A montanha de papel sobre a mesa, esperando meu trabalho. Por que fui arrumar coceira? Ser professor já não vai muito bem? Agora se meter em servicinho de editora... Servicinho que nem paga pelo anonimato: guias de estudos, suplementos, roteiros de leitura, coisinha escroque. Ninguém nem devia de ler isso. E eu aceitando essa groselha pra ganhar um tostão.

Por que não foi fazer publicidade? Você escreveria assim mesmo, nas suas horas vagas. E cada ideia valeria nota preta.

Um escritor sem livro publicado? Investe mais nesses trabalhos, as editoras têm alguém por lá que acaba sempre farejando um talento.

Talento. Escrita dura, pedra sobre pedra, escrita sobre a escrita. O pêndulo com os pombos, seu Mário e as casas tortas desta rua, pesadelos neogóticos. As sombras e as raízes das árvores imensas, os homens de colete (pesadelo) perguntando o que você andou fazendo nesses últimos dias.

Nem uma linha. Nulla die sine linea. Ah, ah.

As perguntas vão reaparecendo, entre a poeira dos dias, sempre. O que esses anos todos foram acumulando de entulho. Um pouco da Roosevelt. Um pouco do seu próprio corpo. Um pouco dos copos de outros onde já meteu seu beiço. Um pouco das coisas pelas quais você um dia lutou.

Nulla die sine linea.

Seu Mário existe na forma de um corvo. O corvo do poeta Poe. Aquele doido americano. Ou a coruja do amaldiçoado Paulo Honório.

E você, Professor, que se vire com seus pombos.

Podia levantar-se agora, espanar a papelada e digitar cinco ou seis laudas de um textinho irretocável. Por que não o faz? Vingança, preguiça, falta de ambição. E, ao contrário do que pensam (Seu Mário nunca saiba disso), você não escreve. E ao contrário do que pensam ("Um bacharel, vejam só"), você redige cartas.

Despojos dejetos desejos entulhos. Tudo o que o tempo devolve, espumando imundas ondas.

Olha o Pinheiro
Podre
Dentro de todo homem
há um rio virulento

(Antonio Cruz)

Os espaços apertados (quando era jovem adorava o termo "angusto", mas a vergonha restringiu seu uso a situações metalinguísticas) são propícios à perturbação mental. Isso está escrito em Crime e castigo. Esse é o tamanho do seu mundo.

Uma noite andando pela rua, achou que era Raskólnikov. Um pesadelo que durou dois meses; levou-o, a certa altura, a adormecer em túmulos. O coro dos entulhos, dos despojos, dos desastres.

São Paulo. 

Dormiu em bancos de praças, marquises, cinemas. E não porque não tinha casa. Chegou a andar três dias sem nenhum destino. Radial Leste. Cachoeirinha. M'Boi-Mirim. Qualquer nota. Qualquer preço. Qualquer troco. 

Seu Mário me diz que ele é neurótico, e que está vendo sua mulher ser devorada aos poucos pelo câncer. 

É a cidade toda, seu Mário, é todo o mundo. 

Ele é um homem sincero e me diz isso segurando seus cabelos com fúria. 

A pilha de papéis mede meus movimentos. Esse é um cronômetro. 

Eu sou o entulho. 


(São Paulo, janeiro de 2002)